Ficou bastante evidente a influência do futebol sobre a vida política, assim como ficou, talvez já não tão claro, as influências da política sobre o mundo do futebol. Não, não trataremos aqui do pouco falado jogo entre Estados Unidos e Irã no dia 26 de junho em Lyon. Trato sim da Copa como um todo que desde o início mostrou protecionismo aos times europeus, e principalmente aos donos da casa. A começar pela configuração das chaves; um dos únicos times não europeus que não poderia reclamar, por não estar prejudicado, é o próprio Brasil. De fato, da maneira com que foram ordenados os grupos, era quase certo haver um time europeu na final; este foi o motivo do ataque da parte dos africanos contra a FIFA, ao afirmarem um complô contra os africanos.

A forma como o imperialismo da globalização usou a Copa me lembrou da política do ‘pão e circo’ do antigo império de Roma. Pode-se dizer o resultado foi bastante interessante para a globalização. Com a vitória da França o partido comunista de lá tende a perder um pouco da força que vinha ganhando nos últimos anos por motivos que iam desde o desemprego até aos testes nucleares no sul da Ásia. Tal força adquirida pelos comunistas desencadeou a vitória nas urnas do atual premier Lionel Jospin. A tática da Copa parece ter surtido o seu efeito quando na terça, 14 de julho, o presidente francês Jaques Chiraq desfilava pela Champs Eliseé em seu conversível comemorando a queda da Bastilha e o aumento de sua popularidade após a vitória no futebol; tudo num evento cívico que, segundo a imprensa, teria sido o maior na França desde o fim da segunda guerra. Em palavras curtas, o sucesso da França na Copa poderá influenciar significativamente as eleições presidenciais mantendo a direita na presidência do país.

No Brasil, onde o pentacampeonato já estava há muito tempo sendo vinculada à reeleição do atual presidente Fernando Henrique, as coisas ainda andam dentro de uma boa margem de controle dos governistas. A imprensa fez seu papel de valorizar a segunda posição no campeonato vendendo, ainda, a justa idéia de que o Brasil seria o campeão do século. E eu pergunto: e até porque não campeão do milênio? Bem, todos esses fatores aliados ao eficiente marketing que já veio elegendo presidentes como Fernando Collor e o próprio Fernando Henrique, deverão manter a direita no controle durante o próximo mandato, afastando assim qualquer preocupação ou ansiedade dos investidores estrangeiros. Afinal, a ansiedade é privilégio do povo que ama o futebol.

Quanto a política da Copa, propriamente dita, pôde-se notar especulações das menos às mais sujas. Desde a escolha das cabeças de chave ao croissant radioativo de Ronaldinho. Para quem já explodiu um atol não seria demais explodir um atacante brasileiro.

Creio que não seria exagero afirmar que ao menos 12 dos 32 países participantes da Copa do Mundo tinham boas chances de chegar à final. Prova disto é o número de jogos disputados em prorrogações ou pênaltis. Em se tratando de times tão equilibrados tecnicamente, qualquer item desfavorável conta e muito. No caso do jogo do Brasil o número de fatores desfavoráveis nos fazem duvidar de uma simples coincidência. Um é o fato da final ter sido apitada por um árbitro africano que mora na França e um assistente inglês que, ao menos ao meus pobres olhos, pareceu um tanto tendencioso. Outro fator é o já citado estado de saúde de Ronaldinho, que devemos contestar até que ponto não foi provocada. Para completar a França jogava em casa, o que me parece ter sido sua única vantagem leal.

Vale ainda lembrar a forma como o técnico Zagallo entrou pela primeira vez no comando da seleção: na Copa de 70 após o corte do técnico comuna. Lembraram? É… para ser técnico de seleção tem que se entender razoavelmente de política. E por último: teria a Nike algo a ver com a escalação de Ronaldinho até o fim do jogo mesmo sem condições e com um banco reserva favorável? Afinal a fabricante de calçados investiu pesado no garoto para que ele ficasse no banco na final. Forças ocultas… ou talvez nem tão ocultas. Mais uma vez, vitória do imperialismo globalizante.

Gostou do texto? Compartilhe:
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Live
  • Rec6
  • Technorati
  • LinkedIn
  • MySpace
  • Netvibes
  • Twitter