Google Deixa a China

Nesta segunda-feira o Google desligou o seu servidor de buscas na China, o google.cn. A partir de então as buscas em mandarim simplificado (chinês da China) podem ser feitas a partir de um servidor em Hong Kong desprovido da auto-censura chinesa. O escritório da empresa continuará aberto na China apesar do serviço de buscas ficar hospedado em Hong Kong. Ou seja: o Google saiu da China sem sair.

A questão da China com o Google tem pontos não explicados o que a torna um pouco difícil de entender. É claro que levantando alguns chavões ideológicos ficaria tudo mais “fácil”, seja para quem defende a liberdade ocidental, seja para quem defende o comunismo chinês.

Eu separei algumas considerações sobre o assunto para quem, como eu, não conseguiu tomar lado nessa discussão.

Sofremos um ataque altamente sofisticado

Em dezembro de 2009 o Google anuncia que sofreu um ataque altamente sofisticado. O anúncio aponta que esse ataque teria partido da China. Danos sofridos:

  1. Propriedade intelectual da empresa foi acessada indevidamente. Não foi revelado que tipo de material foi roubado (google search, gmail?).
  2. Emails de dez ativistas de direitos humanos ligados a China tiveram violada a sua lista de emails recebidos e enviados. A identidade destas pessoas obviamente não é conhecida.

Segundo o mesmo anúncio outras 20 empresas teria sofrido ataques semelhantes.

Uma deliberada falta de nexo?

Eu li e reli o texto A new approach to China (uma nova abordagem para a China) do blog oficial do Google para tentar entender a razão da empresa falar em fechar seus negócios na China. Afinal, como a Microsoft disse, toda empresa sofre ataques hackers mas não é nada comum culpar o governo por isso. Já imaginou se os bancos culpassem o governo brasileiro por todos os crimes que ocorrem na internet brasileira?

Segundo o pronunciamento oficial a empresa teria sofrido ataques sofisticados por hackers chineses e por isso estaria fechando seus negócios na China. Não tem nexo. Isso só faria sentido se o ataque tivesse apoio do governo chinês, o que aliás é amplamente apontado pela imprensa mas nunca foi declarado pelo Google. Por algum motivo o Google evita ao máximo acusar o governo chinês diretamente.

O google realmente culpa o governo pelos ataques?

Oficialmente não. Nos dois pronunciamentos oficiais o Google não acusa o governo chinês de promover ou de encobertar os ataques de dezembro de 2009. Se existe alguma ligação o Google não apontou explicitamente. A empresa poderia estar omitindo esta informação para proteger alguma coisa. Ou agindo de má fé. Será que um dia essa parte da história será contada? Se você souber de alguma dica coloque nos comentários 🙂

Auto-censura

Particularmente não concordo com a censura chinesa, mas os comunistas tem observado que o Google aceitou formalmente a auto-censura. Isso aconteceu em 2006 quando a empresa decidiu abrir um escritório no país e aceitou a auto-censura chinesa. Esse registro encontra-se no blog do Google: Testimony: The Internet in China.

O que é a auto-censura chinesa? Na prática significa que buscas por conteúdo pornográfico ou certas críticas ao governo simplesmente não trazem os resultados esperados.

Na China existe uma legislação que proíbe a divulgação desses dois tipos de conteúdo: conteúdo anti-chinês e pornografia. Em uma entrevista à rede CNN o primeiro ministro Wen Jiaobao alegou que quase todas as nações praticam algum tipo de censura. Segundo Jiaobao a internet chinesa mantém uma série de críticas sérias ao governo, mas que não são censuradas.

Lendo outras matérias no China Daily, o jornal do partido comunista chinês, a sugestão é de que a censura política vá diminuindo conforme os “riscos” diminuam. O que isso significa é matéria para outro texto, mas eu tenho convicção que isso só se tornará verdade quando a maioria dos chineses compor a classe média, o que deve tomar no mínimo mais 30 anos (uns 50 segundo a constituição do partido comunista). Será que os chineses estarão dispostos a aguardar tanto tempo? É difícil dizer, mas na minha opinião é uma questão que não cabe a um extrangeiro impor à China. Os ocidentais tratam a democracia de hoje como tratavam do cristianismo antigamente. Ao meu ver nenhum modelo de democracia deveria ser imposto da forma como o cristianismo foi imposto ao novo mundo.

O Google realmente deixou a China?

Assim como é dever (ou papel) da classe média chinesa lutar (ou não) pela sua própria liberdade, me parece ser papel do Estado manter a lei. Se existe um site disponível na internet que desrespeite uma lei chinesa esse site deve ser bloqueado.

Fica mais fácil de entender se compararmos. Considere que países como a Alemanha e EUA bloqueiam sites que divulgam ideias terroristas como o neonazismo e a jihad islâmica. Entenda: a liberdade de expressão de apoio ao neonazismo é vista como um perigo para o alemão. Para muitos chineses a ideia ocidental de liberdade política ocidental é vista como um grande perigo pois pode comprometer as ações do Estado ao transformar os políticos em meros porta-vozes de empresas. Esse debate acontece na China, como você pode conferir na matéria China’s elections won’t be Western-style (As eleições da China não seguirão o padrão ocidental) do China Daily.

O que virá a seguir

É possível que o google.com.hk seja totalmente bloqueado na China. Com isso a tendência é que o Google perca os 35% de participação no mercado de buscas da internet chinesa, assim como toda a sua receita por anúncios. Se isso acontecer seria mais racional, do ponto de vista capitalista, fechar o escritório chinês.

Outra possibilidade: boa parte dos internautas chineses continuariam a usar google e outras ferramentas usando proxies que permitem burlar a legislação. Seria essa a aposta da empresa?

Hong Kong e o restante da China têm muitas diferenças, mas a tendência é que eles se tornem cada vez mais parecidos. Talvez o Google fique de molho em Hong Kong até lá.

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