Ciências Sociais

Alguns textos com temas ligados às Ciências Sociais.

Algumas Coisas Sobre a China

A escrita tradicional (中國) e simplificada (中国) da palavra "China"Hoje foi o último dia dos Jogos Olímpicos e por isso resolvi falar de algumas coisas que acho interessante sobre a China.

De cada cinco pessoas no mundo, uma delas é chinesa. Apesar dessa proporção ser grande eu pouco ouço falar sobre o modo de vida de lá. Não é curioso?

Aparentemente existe uma valorização da educação formal muito maior naquele país do que no Brasil. Eu ainda não tive contato suficiente com literatura, filmes e seriados chineses para confirmar isso, mas aparentemente é o caso. Uma vez eu li algo a respeito em um livro de Paul Kennedy: Ascenção e Queda das Grandes Potências. Kennedy argumentava que nos EUA não se valoriza muito o preparo técnico formal, e que isso prejudica a economia de um país ao longo prazo. Qual será o peso que a valorização do ensino tem na atual prosperidade chinesa?

Em relação ao nome, os chineses chamam o seu Estado, a sua nação, de “Estado Central”, cuja pronúncia em mandarim é Zhōngguó (中国). O nome “China” que nós ocidentais damos para o “Estado Central” é um nome que os estrangeiros criaram se baseando no nome da dinastia Qin. Da mesma forma, não existe uma língua chamada chinês. A língua oficial na China é o mandarim de Pequim, e existem diversas outras línguas e dialetos falados dentro da China. Somente do mandarim existem oito dialetos…

Existem duas Chinas… Com o fim da II Guerra Mundial duas grandes frentes disputaram o poder interno. A frente de direita era liderada por um oficial do exército chinês que segundo a história tinha interesses de fundar uma nova dinastia. A frente de esquerda era mais voltada às ideologias de Confúcio onde o interesse coletivo deve prevalecer sobre o interesse individual. Em um mundo polarizado entre EUA e URSS a frente de esquerda se identificou com o comunismo da URSS e a frente de direita se identificou com o liberalismo econômico dos EUA. Na China continental a esquerda ganhou o controle de todo o continente (República Popular da China), e o grupo de direita ficou com a China que conhecemos hoje como Taiwan (República da China). Mas até hoje ambos Estados reclamam ser o verdadeiro governo central…

obs: quando a China se fechou para o mundo, logo após a revolução cultural, eu acho que estava patente que a China não era nem alinhada à União Soviética ou aos Estados Unidos. Ainda hoje as pessoas olham para aquela direção e acham que eles são comparáveis aos russos, o que é um grande engano.

Na China não se usa o alfabeto romano. O mandarim é escrito usando um alfabeto muito antigo chamado kanji. No Brasil nós chamamos este alfabeto de ideograma, pois cada letra costuma representar uma idéia. O kanji também é muito usado no Japão e nas Coréias, mas nestes dois países existem alfabetos auxiliares que são mais fáceis de se usar. O kanji tem milhares de letras. Para ser considerado alfabetizado um chinês deve conhecer mais de dois mil ideogramas!

Em mandarim existem cinco entonações diferentes para cada vogal que conhecemos. Assim uma simples sílaba pode ser pronunciada de cinco maneiras diferentes! A palavra “ma” pode significar mãe, xingar, cavalo, maconha ou uma preposição de pergunta, dependendo da entonação. Então a frase “mamãe xingou o cavalo?” pode ser facilmente confundido com “o cavalo xingou a mamãe?” por alguém que não tenha o ouvido treinado 🙂

A China é uma enorme república onde existe praticamente um único partido: o Partido Comunista Chinês. Os chineses se orgulham de ter o partido com o maior número de militantes no mundo. Apesar de ser o partido hegemônico, duas coisas me chamam a atenção: (1) existe um sentido republicano mais forte no Partido Comunista Chinês do que na maioria dos partidos brasileiros. Em outras palavras o partido não se mistura com o governo em termos de estrutura ou de orçamento; (2) existem outros partidos menores na China em plena liberdade de funcionamento, apesar das notícias da imprensa ocidental. O chinês médio costuma entender que a sua nação é a maior democracia no mundo. Essa informação deve surpreender a qualquer ocidental que tem sua visão de mundo feita por notícias distribuídas pela Reuters, American Press ou France Press (a grande maioria das notícias que lemos no Brasil vem de uma dessas fontes, seja qual for o jornal ou revista). O ponto de vista oposto é o da agência chinesa Xinhua. Não sei se é idôneo, mas é muito útil para comparar com o que costumamos ler.

Mas isso é muito bom para demonstrar que o sentido de democracia é muito vago. Muitos consideram os EUA muito democráticos, mesmo que o seu processo político se baseie em dois partidos (limitação de escolha) e que a eleição se baseie fortemente em financiamento de grandes corporações (predominância do capital sobre o indivíduo). Os brasileiros também se acham muito mais democráticos que a China. Eu questiono isso. Veja só: até hoje eu não dei uma palavra sequer sobre as eleições municipais de São Paulo, pois tenho medo de ser penalizado com uma multa pelo Estado brasileiro. Hoje declarar apoio no meu blog pode me gerar uma multa de até R$ 24.000,00 para mim e mais outros R$ 24.000,00 para o candidato, além de poder haver cancelamento da elegibilidade do candidato. Parece que estou exagerando? Pois eu e mais um jovem do PSDB abrimos um blog para divulgar notícias do candidato do nosso partido e poucos dias depois um assessor do candidato nos convidou para uma reunião e expôs o problema pedindo que retirássemos a página do ar. Então eu acho muito hipócrita dizer que a China não é do bem por que tem um determinado número de partidos no poder… As críticas à política chinesa que fazem sentido se restringem a violação de direitos humanos, mas o assunto não é tratado com respeito pela mídia ocidental.

Crianças com a Bandeira Chinesa

A China possui muitas etnias, e nos jogos olímpicos fez questão de valorizar todas estas etnias. Na abertura dos jogos foi possível ver 56 crianças vestidas com roupas típicas, representando cada uma destas etnias. É um sinal positivo. Muitos países valorizam suas minorias étnicas, como a Suíça. Outros estados, como os EUA, têm medo das minorias. Recentemente o governo Bush tornou ainda mais difícil a entrada de imigrantes latinos, e até de turistas, atendendo a um clamor eleitoral de extrema direita de manter a maioria branca. Os jornais ocidentais criticaram o fato das crianças serem todas da etnia da maioria, a etnia Han. É uma representação. Sem comentários.

Funcionalismo Público

Eu ainda não sei bem mas me parece – até onde eu posso deslumbrar – que o funcionalismo público teve muitos dos seus princípios vindos da China. Confúcio e Zhuge Liang são dois nomes de referência sobre o assunto, pois ambos deixaram um forte legado moral e ético sobre o serviço público. Notei isso assistindo a uma novela coreana de 2004 cujo título é 낭랑18(Sweet 18). Nela o protagonista é um funcionário público sul coreano: um promotor público que luta no combate à corrupção. Por diversas vezes é citado Zhuge Liang, um herói chinês. Sua atuação remete ao período dos Três Reinos que antecederam a China unificada. Busquei três citações nos dois primeiros capítulos da série:

"Inacabada obra a restauração de Han, o último rei falecera. Nosso castelo agora está revestido com a mais terrível condição."

 

Segundo o seriado a citação faz parte do livro “Petição para Confronto em Batalha”, mas eu não encontrei nenhuma citação a este livro na internet. Provavelmente é do livro Chū Shī Biǎo (出師表) que Zhuge Liang escreveu antes da batalha do norte, e contém várias recomendações sobre a guerra além de princípios morais que deveriam guiar o governo do imperador Liu Shan.

 

Nessa cena o avô do chama a atenção do neto com uma citação de Confúcio. A fala do Avô:

“Confúcio disse que as pessoas escolhem suas palavras cuidadosamente porque elas têm medo de sustentar suas próprias palavras. Como você pode falar dessa maneira quando você é um funcionário público?”

O avô do promotor Kwon cita outro provérbio tradicional à mãe da noiva, quando toma conhecimento de que o promotor cancelou o casamento:

“Não é apropriado para um cavalheiro voltar atrás com sua palavra”

Alguns valores modernos do funcionalismo público ocidental teriam sido trazidos, em parte, pelos ingleses quando estes chegaram à China no auge do império britânico. Como a Inglaterra tinha um domínio de fato sobre o Reino Português, parte desses valores teriam sido assimilados por aqui também. Quem dera a contribuição moral de Confúcio e Zughe Liang fossem maiores no Brasil: certamente teríamos serviços públicos de melhor qualidade.

Quer saber mais? CHINAKNOWLEDGE – a universal guide for China studies

Konrad-Adenauer e Cursos de Política

Hoje estive em uma reunião no Instituto do Legislativo Paulista (ILP) com o presidente do ILP e a equipe da Fundação Konrad-Adenauer Stiftung para tratar de uma possível parceria em cursos sobre ciência política.

O presidente do ILP, Eduardo Lamari, vêm trabalhando para pôr em prática um Curso de Iniciação Política. O conteúdo do curso foi cedido pela Fundação Mario Covas e a Assembleia Legislativa já imprimiu várias cópias da apostila deste curso. Infelizmente encontramos limites financeiros para colocar este projeto em ação: a Assembleia conta com um orçamento bastante limitado este ano, o que impede a contratação de professores para este curso. A parceria com a Fundação alemã viria resolver esta questão, além de trazer cursos mais específicos sobre a democracia.

A Konrad-Adenauer é uma fundação alemã que produz estudos de excelente qualidade sobre democracia. Foi uma das principais referências nos estudos de Sistema Partidário que tive com a Prof. Maria D’Alva Kinzo, na USP. Essa parceria que deve se concretizar nos próximos meses deve resultar em Cursos de Iniciação Políticas aos cidadãos do nosso Estado, especialmente aos jovens, além de cursos sobre partidos políticos e democracia destinado a um público mais engajado tanto na política quanto nas faculdades.

Celular Sem Operadora

Telefone celular com capa de bananaOntem o Sergio Amadeu escreveu em seu blog um post com um título tentador: “Celular Sem Operadora: Seria Viável a Gratuidade na Comunicação?”. Trata-se de uma idéia que o próprio Sérgio Amadeu já tinha levantado anteriormente ainda que de forma um pouco diferente. Na matéria que publicou ontem ele descreve uma comunicação que seria feita entre o telefone celular e uma rede sem fio pública, oferecida pelo Estado. O Estado ofereceria acesso gratuito ao cidadão que possui um celular com capacidade de se conectar a internet e as ligações seriam feitas sem custos para outros celular ou computador também ligado a internet.

Hoje em dia os celulares com tecnologia suficiente para realizar tal proeza em wi-fi não sai por menos de R$ 950,00 sem o subsídio da operadora de celular. Em outras palavras, se depender do custo de mercado hoje somente uma faixa bem restrita de cidadãos poderia se beneficiar de um serviço como esse. Mas algum dia no futuro os celulares poderão vir com esse recurso por um preço realmente acessível.

Mas o que me chamou a atenção mesmo na matéria foi a seguinte provocação do Sérgio Amadeu:

Aí vêm a turma do Kptal perguntando: quem paga? é gratuito?

Trabalhador usando telefone celularVou responder como colega: ainda que eliminássemos a moeda das relações sociais o oferecimento de tal rede geraria trabalho humano. E quem deveria trabalhar para que todos usufruam do serviço?

Agora com termos um pouco menos marxistas: para montar uma rede dessas, manter o link e os equipamentos em funcionamento é necessário dinheiro. Se esse dinheiro for pago pelo Estado então ou sobrará menos dinheiro para outros serviços públicos ou o contribuinte pagará mais dinheiro ao Estado. Qualquer explicação diferente é quimera. O fato que o dinheiro do Estado que deve ser utilizado para oferecer transporte, saúde e educação passaria a ser gasto também com comunicação.

Agora eu devolvo a bola: é justo que o Estado e o contribuinte custeie a comunicação do cidadão? Minha opinião é que é injusto, pois o maior beneficiário hoje seriam os mais ricos, e eu acho injusto o Estado beneficiar aos ricos em detrimento dos mais pobres.

Políticas de Ensino Superior

Abertura do Seminário Ensino Superior numa Era de Globalização

Aconteceu nesses dias 3 e 4 de dezembro um seminário sobre ensino superior na Fapesp e eu estive envolvido por meio do Instituto do Legislativo Paulista (ILP). O seminário foi realizado pela Assembléia Legislativa (Alesp) em conjunto com a Fapesp e dois núcleos de pesquisa da USP. O presidente da Alesp, deputado Vaz de Lima, se demonstrou bastante comprometido com o seminário que deve influenciar fortemente as políticas de ensino superior do Estado.

Me senti particularmente estimulado em participar deste seminário pois os estudos apontam para um modelo de ensino superior que havíamos defendido na juventudo do PSDB e no Congresso Estadual do PSDB em Praia Grande faz alguns meses. O Congresso é o espaço onde o partido decide quais são as teses que vão direcionar as ações políticas em geral. Neste caso defendemos uma melhoria na política do ensino superior, que poderia ter uma atuação mais relevante na formação profissional e no desenvolvimento de inovações tecnológicas que levem nossos produtos a um patamar de competitividade internacional.

Hoje o Estado trata faculdade como ambiente de pesquisa e não como uma oportunidade para criar profissionais para o mercado de trabalho e melhorar a nossa economia. As expectativas da sociedade na verdade não são atendidas. Porque para a grande maioria das pessoas o mais importante não ter a melhor faculdade da América Latina na sua cidade ou no seu estado. O mais importante para o cidadão é saber que na sua cidade ou no seu estado existem oportunidades reais para que o seu filho possa se formar em uma instituição de ensino superior adequada e enfrentar o mercado de trabalho com dignidade.

O caso de sucesso analisado foi o Masterplan do estado Califórnia. A idéia é que uma parcela relativamente pequena, de cerca de 10% dos estudantes de ensino superior no estado tenham acesso aos cursos de pesquisa. São estudantes que têm pretensões de se tornarem professores, pesquisadores ou profissionais com especialização acadêmica. Os demais alunos ficariam em faculdades voltadas ao ensino mas sem pretensão de pesquisas acadêmicas. Cursos com esta características podem inclusive ter uma duração menor, o que de fato acontece na Califórnia, onde a legislação facilita a existência destes cursos. Adaptando para o cenário brasileiro, seria como ampliar a oferta de cursos de tecnólogos, com duração menor que os cursos tradicionais. Na Califórnia 80% dos alunos que se formam no ensino médio ingressam diretamente nos cursos de pequena duração, 10% vão para cursos de pesquisa e outros 10% vão para cursos regulares de 4 ou 5 anos de duração, mas sem foco em pesquisa.

Eu vejo duas vantagens em diversificar os investimentos em ensino superior da maneira exposta acima. Em primeiro lugar, manter um ensino superior de qualidade como o que temos em São Paulo é muito caro, e impossível de se estender a toda a população de possíveis alunos. Defender a manutenção do sistema como ele se encontra hoje é uma postura elitista, pois somente os mais ricos tem condições reais de receber um ensino superior no modelo atual. Em segundo lugar eu acredito que um modelo diversificado é melhor para os alunos, que na maioria das vezes não querem e não precisam de um preparo em uma instituição de excelência em pesquisas.

Quando eu entrei na Faculdade de Ciências Sociais da USP quase todos os colegas ficavam angustiados sobre o seu futuro profissional; porque a maioria tinha entrado para o curso pensando em alguma atuação no mercado, ou como professor de escola, ou como funcionário público, mas a pressão do meio acadêmico para que cada aluno se torne um pesquisador era muito grande. Não é a toa que dos 210 alunos que ingressam todos os anos neste curso, somente cerca de 40 conseguem terminar o curso. No curso de filosofia a taxa de desistência é ainda maior.

As apresentações do seminário foram muito interessantes, oferecendo um amplo quadro comparativo das políticas públicas de ensino superior em diversos países. Da palestrante Wan-hua Ma, da China, veio um alerta importante que vale tanto para a China quanto para o Brasil. Nos últimos dez anos o Brasil dobrou a oferta de vagas para a faixa de jovens formados no ensino médio. Quando ampliamos a oferta de vagas em um ritmo tão acelerado, precisamos tomar cuidado com a qualidade dos cursos que estão sendo ofertados. No Brasil 90% das vagas são oferecidas pela iniciativa privada, que deve receber critérios claros de atuação e receber uma fiscalização efetiva por parte do Estado. O outro ponto de fragilidade, talvez este muito mais preocupante pois amplia bastante o debate, é a qualidade dos alunos que se formam no ensino médio. Uma boa instituição de ensino não se faz somente com bons professores, mas acredito eu que principalmente de bons alunos.

Por fim quero apresentar minhas satisfações com os organizadores deste eventos, em especial o prof. Guilhon Albuquerque e a profª. Elizabeth Balbachevsky e me por a disposição para continuar demonstrando apoio a este modelo de ensino que poderá melhorar a vida de muitos jovens paulistas se implementado.

Punição aos Ocupantes da Reitoria da USP


Hoje recebi em meu perfil do orkut um recado de um perfil chamado “Vítimas dos CurruPTos” (sic) que faz a denúncia de que as forças públicas do Estado de S. Paulo estariam instaurando processo contra os alunos radicais que ocuparam a reitoria da USP recentemente. O conteúdo do recado vermelho é o seguinte:

LUTA O advogado do Partido daCausa Operária e membro do Comitê de advogados formado para defender os estudantes perseguidos, Alexandre Gallo, afirmou em entrevista à Radio Causa Operária que “foram instaurados inúmeros inquéritos contra os estudantes que participaram da ocupação (da USP). Obtive a informação que esses inquéritos estavam sendo confeccionados no 91° DP (…) fomos pessoalmente na delegacia para tentar tirar xerox destes inquéritos, aos quais por uma estranheza, apesar de serem processo público, não pudemos ter acesso”;Gallo afirmou também;“vamos entrar com medida judicial para ser entregue o processo”Segundo o delegado de plantão estão apenas procurando os endereços dos estudantes para começar a intimar os ocupantes. A segunda reunião do comitê contra as punições será realizada dia 26 de julho, às 19h no porão do prédio dos cursos de ciências sociais e filosofia, com o objetivo de organizar a campanha e colocar em marcha a defesa intransigente dos estudantes em luta…site www.pco.org.br.

Transcrevo aqui a minha resposta telegráfica: “Espero que a ocupação do espaço público pelos estudantes radicais seja adequadamente apurada e punida. Abraços.”

Acredito que a ocupação trouxe lesão direta a patrimônio público e acredito nos meios institucionais do Estado para evitar que fatos similares ocorram novamente. Ou seja, não vejo nada errado, e até defendo, que os colegas que ocuparam a reitoria sejam responsabilizados e recebam punições proporcionais aos danos causados. Quanto ao PCO e aos outros incitadores da ocupação, acho justo que ofereçam todo o suporte jurídico necessário aos participantes da ocupação. Isso é mais do que justo.

Só não concordo com a opinião que o meu amigo Vinícius escreveu em seu blog. Segundo ele o movimento estudantil teria logrado êxito com a ocupação. Discordo. Em primeiro lugar porque o movimento estudantil saiu com a imagem manchada na grande mídia. Em segundo porque eu não vi avanços da discussão da autonomia universitária. Como contribuinte continuo achando mais do que justo que o empenho do dinheiro que o povo paulista aplica na universidade seja demonstrado públicamente. Isso torna a universidade mais transparente à população. E ninguém, nem os estudantes, nem os acadêmicos da universidade, ofereceram uma explicação convincente para que estes gastos continuem a ser feitos sem prestação de contas pública.

Afinal, que mal há nisso?

Se você ainda não entendeu qual ação do governador José Serra gerou a revolta dos estudantes, leia no blog do Thiago Carneiro.

Enquanto isso outros blog radicais, como o Bah! Caroço, apontam as mudanças nas secretarias como uma evidência dos planos do PSDB de pilhar a universidade. Faça me o favor!

Sobre o criacionismo e o darwinismo

A cerca de um mês atrás o meu amigo Elcio enviou dois posts no seu blog. Quando eu vi os seus dois posts: “Fatos sobre o Criacionismo” e “Criacionismo e Design Inteligente“, logo pensei que eu deveria responder, afinal já conversamos a respeito antes. Como a resposta ficou comprida, fiz outro post.

Quando eu comecei meu curso de ciências sociais eu me deparava com essa questão toda semana no curso de antropologia. No final das contas eu acho que não é muito importante para mim julgar qual idéia é melhor. Eu não me interessei pela antropologia, mas sim pela ciência política. Além do mais eu não busco nenhuma justificação para fé alguma. Quem sabe daque a alguns anos a minha filha Yohanah me obrigue a voltar a este assunto com mais seriedade.

Tanto criacionismo quanto evolucionismo podem ser apresentados como teoria ou como verdade, como crença. Segundo Levi Strauss a ciência é o grande mito do século XX. Acho que posso afirmar que a maioria das pessoas não discute as teorias, e sim as crenças. Alguns chegam a se aproximar da argumentação teórica, mas é uma conversa que vai ficando chata…

Do ponto de vista das evidências eu não consigo argumentar direito, pois eu não sei de verdade como funciona a mensuração da idade de fósseis pelo carbono. Eu perguntei ao meu professor de antropologia, o Carlos Serrano, mas ele como um bom antropólogo não soube me responder 🙂 Poderia ter perguntado para um bioquímico, mas eu simplesmente não fiz isso durante os dois anos que trabalhei no Instituto de Química da USP no departamento de… bioquímica, ahah.

Ambos lados argumentam que as evidências correboram sua teoria. Os criacionistas aproveitam para “demonstrar” o dilúvio nos fósseis de peixes encontrados no meio do continente, e argumentam que os fósseis que os evolucionistas descrevem como sendo de uma espécie ancestral de outra conhecida é na verdade uma outra espécie concebida pelas mãos do Criador mas que hoje está extinta, ou se trata de um indivíduo com defeitos congênitos.

Mas é uma discussão de cegos. Não existe evidência. Isso me dá uma apatia profunda. Se existe Deus, orixás ou qualquer coisa do tipo, nenhum destes deuses deu a cara para mim. E isso me dá uma apatia muito grande.

Confeso que eu sonho, ainda que resignado, em ver coisas fantásticas acontecerem. Mas sendo realista eu sei as maiores evidências de que Deus existe são as afirmações dos meus pais e professores, e eu não confiou neles a tal ponto.

Deixando para trás o dramalhão: do ponto de vista epistemológico qual teoria é melhor? Desde que ambas expliquem tudo, a mais parcimoniosa é a melhor. Parcimônia é economia. E em teoria científica isso significa menos construtos teóricos.

1o ponto: eu não entendo disso direito, mas vou assumir a postura de que podemos explicar quase tudo de ciência normal com ambas teorias. Ou seja: um biólogo conseguiria ser biólogo explicando que os pássaros vieram das mãos do Criador, ou que evoluiram de outra forma de vida.

2o ponto: o evolucionismo tem menos construtos teóricos. Consideremos o mundo como conhecemos hoje: as espécies apresentam mutações. Ambas teorias devem aceitar pois é um fato. E qual o motivo de ser assim? Para o darwinismo é assim porque é assim, se organizou desta maneira naturalmente. Para o Criacionismo foi organizado assim por Deus. Até aí 1×1: as coisas existem porque sempre existiram e do outro lado foram criadas. Daí o Criacionismo precisa de um segundo construto que é Deus, que é o indivíduo que cria. Deus não foi criado por ninguém ou nada. Deus sempre existiu assim como toda a matéria do universo do darwinismo. O criacionismo tem um construto a mais, sem ter nenhuma justificativa empírica para incuir este construto.

Agora vamos testar os construtos fundamentais. As coisas existem? Bem, as coisas existem sim. Nós podemos refutar a existencias dos seres e de toda a matéria do universo, mas toda a matéria do universo existe e possui uma natureza própria e uma organização e tal. Isso nós constatamos empiricamente. Refutar a existencia das coisas talvez seja o papel do cético radical, mas não do criacionista. E o cético não possui evidência de que as coisas NÃO existem. O cético no máximo questiona a segurança da afirmação de que as coisas existe pelo simples fato de que podemos tocar, cheirar, ver… as coisas que existem. Por outro lado o criacionismo nos oferece um construto intangível. Não posso ver nenhuma evidência direta de Deus. Nada. Quem dirá refutá-lo.

É por isso que eu me desanimo com essa discussão. No máximo, o que consigo, é incomodar algum nobre colega que vai a igreja e que gosta de ver nas argumentações criacionistas uma justificação para a fé. E no fundo eu não preciso difundir essa confusão no coração de quem está bem seguro no seio de uma comunidade religiosa, coisa que sempre dei valor, mesmo quando dei as costas.

Por último eu vou deixar este video dos Simpsons, só para descontrair.

A Utilidade da Filosofia e Karl Popper

Nossa! Como a Bárbara tem escrito no seu blog. Acho que é para fazer jus a fama de que o povo de ciências humanas adora esticar o assunto 🙂

Em relação a suposta arrogância de Karl Popper, acredito que se trata de uma conclusão epistemológica. Epistemologia é interessante. Tive contato com dois professores que falavam bastante de epistemologia que é a ciência da ciência.

A teoria de Einstein seria melhor que a teoria de Freud segundo a epistemologia poperiana, sim. Uma evidência disso: a teoria de Freud é base de teorias modernas, mas a teoria de Freud está superada ao contrário da teoria da relatividade que apesar de várias tentativas ainda não foi rfutada nem melhorada.

Agora eu vou falar um pouco sobre a utilidade da filosofia, que foi a pergunta que a Bárbara se deparou. Bem, eu acho que para responder adequadamente esta pergunta é mais fácil decompor. E eu decomponho a questão separando os campos da filosofia.

A epistemologia é um campo da filosofia importante para todas as outras ciências. Qualquer cientista de um ramo pragmático pode trabalhar na produção científica sem se preocupar com questões teóricas, questões epistemológicas. É o caso do médico e do químico. Já um cientista que trabalha em um campo não pragmático eventualmente precisa se voltar a questões de ciência básica, epistemológica. Este costuma ser o caso no campo das ciências humanas e em alguns campos da física onde não existe uma teoria pragmática.

A ética é outro ramo interessante e igualmente útil. O lugar mais comum de encontrar a ética aplicada é no meio jurisprudencial, especialmente quando está em discussão questões não abordadas explicitamente no ordenamento jurídico. A política e a religião também recorrem a ética quando discutem, por exemplo, a questão do aborto.

Existem outros campos, como a lógica em que existe um lado mais teórico e outro mais aplicado. Mas no geral existe equele lado romântico ou místico que a filosofia desperta nas pessoas em geral. É aquela face da filosofia que abre a porta para a imaginação e para as respostas existenciais de que os Homens tanto precisam.

Sucesso na sua faculdade Bárbara 😉