Ciências Sociais

Notícias de uma Guerra Particular

Capa do DVD Notícias de uma Guerra Particular

Sempre que falo sobre moralidade com meus amigos eu me lembro de um filme que eu considero muito importante. É um documentário de João Moreira Salles chamado Notícias de uma Guerra Particular. Este documentário nos mostra um olhar sobre as comunidades pobres da cidade do Rio de Janeiro, a violência urbana decorrente do tráfico de drogas e a maneira como a Polícia Militar trata o assunto.

Eu vi este filme quando ainda cursava Ciências Sociais na FFLCH…

Foi assistindo a este filme que me dei conta de que a corrupção no Brasil nasce no cidadão comum. E isso me assusta muito ainda nos dias de hoje. Pois eu trabalho fazendo assessoria aos deputados estaduais do PSDB, e eu acredito que a política deve ser ocupada pelos cidadão que tem moralilibada e bons costumes.

Mais tarde o filme Tropa de Elite trouxe a mesma mensagem, mas desta vez romanceada: (1) a tolerância à corrupção existe em todas as classes sociais e (2) a soma de ilícitos menores gera a sociedade que temos; corrupta e ineficiente. Isso me entristece.

Eu recomendo que assistam ao documentário. Quem tiver dificuldades em conseguir o DVD segue abaixo link para o material que encontrei no google video em dez partes: parte 1, parte 2, parte 3, parte 4, parte 5, parte 6, parte 7, parte 8, parte 9 e parte 10. Já quebra um galho.

Políticas de Ensino Superior

Abertura do Seminário Ensino Superior numa Era de Globalização

Aconteceu nesses dias 3 e 4 de dezembro um seminário sobre ensino superior na Fapesp e eu estive envolvido por meio do Instituto do Legislativo Paulista (ILP). O seminário foi realizado pela Assembléia Legislativa (Alesp) em conjunto com a Fapesp e dois núcleos de pesquisa da USP. O presidente da Alesp, deputado Vaz de Lima, se demonstrou bastante comprometido com o seminário que deve influenciar fortemente as políticas de ensino superior do Estado.

Me senti particularmente estimulado em participar deste seminário pois os estudos apontam para um modelo de ensino superior que havíamos defendido na juventudo do PSDB e no Congresso Estadual do PSDB em Praia Grande faz alguns meses. O Congresso é o espaço onde o partido decide quais são as teses que vão direcionar as ações políticas em geral. Neste caso defendemos uma melhoria na política do ensino superior, que poderia ter uma atuação mais relevante na formação profissional e no desenvolvimento de inovações tecnológicas que levem nossos produtos a um patamar de competitividade internacional.

Hoje o Estado trata faculdade como ambiente de pesquisa e não como uma oportunidade para criar profissionais para o mercado de trabalho e melhorar a nossa economia. As expectativas da sociedade na verdade não são atendidas. Porque para a grande maioria das pessoas o mais importante não ter a melhor faculdade da América Latina na sua cidade ou no seu estado. O mais importante para o cidadão é saber que na sua cidade ou no seu estado existem oportunidades reais para que o seu filho possa se formar em uma instituição de ensino superior adequada e enfrentar o mercado de trabalho com dignidade.

O caso de sucesso analisado foi o Masterplan do estado Califórnia. A idéia é que uma parcela relativamente pequena, de cerca de 10% dos estudantes de ensino superior no estado tenham acesso aos cursos de pesquisa. São estudantes que têm pretensões de se tornarem professores, pesquisadores ou profissionais com especialização acadêmica. Os demais alunos ficariam em faculdades voltadas ao ensino mas sem pretensão de pesquisas acadêmicas. Cursos com esta características podem inclusive ter uma duração menor, o que de fato acontece na Califórnia, onde a legislação facilita a existência destes cursos. Adaptando para o cenário brasileiro, seria como ampliar a oferta de cursos de tecnólogos, com duração menor que os cursos tradicionais. Na Califórnia 80% dos alunos que se formam no ensino médio ingressam diretamente nos cursos de pequena duração, 10% vão para cursos de pesquisa e outros 10% vão para cursos regulares de 4 ou 5 anos de duração, mas sem foco em pesquisa.

Eu vejo duas vantagens em diversificar os investimentos em ensino superior da maneira exposta acima. Em primeiro lugar, manter um ensino superior de qualidade como o que temos em São Paulo é muito caro, e impossível de se estender a toda a população de possíveis alunos. Defender a manutenção do sistema como ele se encontra hoje é uma postura elitista, pois somente os mais ricos tem condições reais de receber um ensino superior no modelo atual. Em segundo lugar eu acredito que um modelo diversificado é melhor para os alunos, que na maioria das vezes não querem e não precisam de um preparo em uma instituição de excelência em pesquisas.

Quando eu entrei na Faculdade de Ciências Sociais da USP quase todos os colegas ficavam angustiados sobre o seu futuro profissional; porque a maioria tinha entrado para o curso pensando em alguma atuação no mercado, ou como professor de escola, ou como funcionário público, mas a pressão do meio acadêmico para que cada aluno se torne um pesquisador era muito grande. Não é a toa que dos 210 alunos que ingressam todos os anos neste curso, somente cerca de 40 conseguem terminar o curso. No curso de filosofia a taxa de desistência é ainda maior.

As apresentações do seminário foram muito interessantes, oferecendo um amplo quadro comparativo das políticas públicas de ensino superior em diversos países. Da palestrante Wan-hua Ma, da China, veio um alerta importante que vale tanto para a China quanto para o Brasil. Nos últimos dez anos o Brasil dobrou a oferta de vagas para a faixa de jovens formados no ensino médio. Quando ampliamos a oferta de vagas em um ritmo tão acelerado, precisamos tomar cuidado com a qualidade dos cursos que estão sendo ofertados. No Brasil 90% das vagas são oferecidas pela iniciativa privada, que deve receber critérios claros de atuação e receber uma fiscalização efetiva por parte do Estado. O outro ponto de fragilidade, talvez este muito mais preocupante pois amplia bastante o debate, é a qualidade dos alunos que se formam no ensino médio. Uma boa instituição de ensino não se faz somente com bons professores, mas acredito eu que principalmente de bons alunos.

Por fim quero apresentar minhas satisfações com os organizadores deste eventos, em especial o prof. Guilhon Albuquerque e a profª. Elizabeth Balbachevsky e me por a disposição para continuar demonstrando apoio a este modelo de ensino que poderá melhorar a vida de muitos jovens paulistas se implementado.

Punição aos Ocupantes da Reitoria da USP


Hoje recebi em meu perfil do orkut um recado de um perfil chamado “Vítimas dos CurruPTos” (sic) que faz a denúncia de que as forças públicas do Estado de S. Paulo estariam instaurando processo contra os alunos radicais que ocuparam a reitoria da USP recentemente. O conteúdo do recado vermelho é o seguinte:

LUTA O advogado do Partido daCausa Operária e membro do Comitê de advogados formado para defender os estudantes perseguidos, Alexandre Gallo, afirmou em entrevista à Radio Causa Operária que “foram instaurados inúmeros inquéritos contra os estudantes que participaram da ocupação (da USP). Obtive a informação que esses inquéritos estavam sendo confeccionados no 91° DP (…) fomos pessoalmente na delegacia para tentar tirar xerox destes inquéritos, aos quais por uma estranheza, apesar de serem processo público, não pudemos ter acesso”;Gallo afirmou também;“vamos entrar com medida judicial para ser entregue o processo”Segundo o delegado de plantão estão apenas procurando os endereços dos estudantes para começar a intimar os ocupantes. A segunda reunião do comitê contra as punições será realizada dia 26 de julho, às 19h no porão do prédio dos cursos de ciências sociais e filosofia, com o objetivo de organizar a campanha e colocar em marcha a defesa intransigente dos estudantes em luta…site www.pco.org.br.

Transcrevo aqui a minha resposta telegráfica: “Espero que a ocupação do espaço público pelos estudantes radicais seja adequadamente apurada e punida. Abraços.”

Acredito que a ocupação trouxe lesão direta a patrimônio público e acredito nos meios institucionais do Estado para evitar que fatos similares ocorram novamente. Ou seja, não vejo nada errado, e até defendo, que os colegas que ocuparam a reitoria sejam responsabilizados e recebam punições proporcionais aos danos causados. Quanto ao PCO e aos outros incitadores da ocupação, acho justo que ofereçam todo o suporte jurídico necessário aos participantes da ocupação. Isso é mais do que justo.

Só não concordo com a opinião que o meu amigo Vinícius escreveu em seu blog. Segundo ele o movimento estudantil teria logrado êxito com a ocupação. Discordo. Em primeiro lugar porque o movimento estudantil saiu com a imagem manchada na grande mídia. Em segundo porque eu não vi avanços da discussão da autonomia universitária. Como contribuinte continuo achando mais do que justo que o empenho do dinheiro que o povo paulista aplica na universidade seja demonstrado públicamente. Isso torna a universidade mais transparente à população. E ninguém, nem os estudantes, nem os acadêmicos da universidade, ofereceram uma explicação convincente para que estes gastos continuem a ser feitos sem prestação de contas pública.

Afinal, que mal há nisso?

Se você ainda não entendeu qual ação do governador José Serra gerou a revolta dos estudantes, leia no blog do Thiago Carneiro.

Enquanto isso outros blog radicais, como o Bah! Caroço, apontam as mudanças nas secretarias como uma evidência dos planos do PSDB de pilhar a universidade. Faça me o favor!

Sobre o criacionismo e o darwinismo

A cerca de um mês atrás o meu amigo Elcio enviou dois posts no seu blog. Quando eu vi os seus dois posts: “Fatos sobre o Criacionismo” e “Criacionismo e Design Inteligente“, logo pensei que eu deveria responder, afinal já conversamos a respeito antes. Como a resposta ficou comprida, fiz outro post.

Quando eu comecei meu curso de ciências sociais eu me deparava com essa questão toda semana no curso de antropologia. No final das contas eu acho que não é muito importante para mim julgar qual idéia é melhor. Eu não me interessei pela antropologia, mas sim pela ciência política. Além do mais eu não busco nenhuma justificação para fé alguma. Quem sabe daque a alguns anos a minha filha Yohanah me obrigue a voltar a este assunto com mais seriedade.

Tanto criacionismo quanto evolucionismo podem ser apresentados como teoria ou como verdade, como crença. Segundo Levi Strauss a ciência é o grande mito do século XX. Acho que posso afirmar que a maioria das pessoas não discute as teorias, e sim as crenças. Alguns chegam a se aproximar da argumentação teórica, mas é uma conversa que vai ficando chata…

Do ponto de vista das evidências eu não consigo argumentar direito, pois eu não sei de verdade como funciona a mensuração da idade de fósseis pelo carbono. Eu perguntei ao meu professor de antropologia, o Carlos Serrano, mas ele como um bom antropólogo não soube me responder 🙂 Poderia ter perguntado para um bioquímico, mas eu simplesmente não fiz isso durante os dois anos que trabalhei no Instituto de Química da USP no departamento de… bioquímica, ahah.

Ambos lados argumentam que as evidências correboram sua teoria. Os criacionistas aproveitam para “demonstrar” o dilúvio nos fósseis de peixes encontrados no meio do continente, e argumentam que os fósseis que os evolucionistas descrevem como sendo de uma espécie ancestral de outra conhecida é na verdade uma outra espécie concebida pelas mãos do Criador mas que hoje está extinta, ou se trata de um indivíduo com defeitos congênitos.

Mas é uma discussão de cegos. Não existe evidência. Isso me dá uma apatia profunda. Se existe Deus, orixás ou qualquer coisa do tipo, nenhum destes deuses deu a cara para mim. E isso me dá uma apatia muito grande.

Confeso que eu sonho, ainda que resignado, em ver coisas fantásticas acontecerem. Mas sendo realista eu sei as maiores evidências de que Deus existe são as afirmações dos meus pais e professores, e eu não confiou neles a tal ponto.

Deixando para trás o dramalhão: do ponto de vista epistemológico qual teoria é melhor? Desde que ambas expliquem tudo, a mais parcimoniosa é a melhor. Parcimônia é economia. E em teoria científica isso significa menos construtos teóricos.

1o ponto: eu não entendo disso direito, mas vou assumir a postura de que podemos explicar quase tudo de ciência normal com ambas teorias. Ou seja: um biólogo conseguiria ser biólogo explicando que os pássaros vieram das mãos do Criador, ou que evoluiram de outra forma de vida.

2o ponto: o evolucionismo tem menos construtos teóricos. Consideremos o mundo como conhecemos hoje: as espécies apresentam mutações. Ambas teorias devem aceitar pois é um fato. E qual o motivo de ser assim? Para o darwinismo é assim porque é assim, se organizou desta maneira naturalmente. Para o Criacionismo foi organizado assim por Deus. Até aí 1×1: as coisas existem porque sempre existiram e do outro lado foram criadas. Daí o Criacionismo precisa de um segundo construto que é Deus, que é o indivíduo que cria. Deus não foi criado por ninguém ou nada. Deus sempre existiu assim como toda a matéria do universo do darwinismo. O criacionismo tem um construto a mais, sem ter nenhuma justificativa empírica para incuir este construto.

Agora vamos testar os construtos fundamentais. As coisas existem? Bem, as coisas existem sim. Nós podemos refutar a existencias dos seres e de toda a matéria do universo, mas toda a matéria do universo existe e possui uma natureza própria e uma organização e tal. Isso nós constatamos empiricamente. Refutar a existencia das coisas talvez seja o papel do cético radical, mas não do criacionista. E o cético não possui evidência de que as coisas NÃO existem. O cético no máximo questiona a segurança da afirmação de que as coisas existe pelo simples fato de que podemos tocar, cheirar, ver… as coisas que existem. Por outro lado o criacionismo nos oferece um construto intangível. Não posso ver nenhuma evidência direta de Deus. Nada. Quem dirá refutá-lo.

É por isso que eu me desanimo com essa discussão. No máximo, o que consigo, é incomodar algum nobre colega que vai a igreja e que gosta de ver nas argumentações criacionistas uma justificação para a fé. E no fundo eu não preciso difundir essa confusão no coração de quem está bem seguro no seio de uma comunidade religiosa, coisa que sempre dei valor, mesmo quando dei as costas.

Por último eu vou deixar este video dos Simpsons, só para descontrair.

Incidente em Antares

Demorei muito tempo para ler este livro. Sabe estes livro que você quer ler mas fica enrrolando meses e meses para terminar? Pois bem, a primeira metade do livro é bastante chata. Parece uma tentativa de criar uma novela com fins didáticos, pois a trama se baseia mais nos fatos políticos da Brasil da época.

Bem, a segunda metade do livro são outros quinhentos. O livro deixa de lado picuinhas políticas para se ater a um fantástico incidente. Talvez o livro pudesse ser mais divertido se a primeira parte fosse outra. Ainda assim eu recomendo este livro. É divertido.

Ainda Sobre a Ocupação da Reitoria da USP

A reitoria da USP continua ocupada por alunos da universidade. Se compararmos com outros governo, o governo de José Serra tem um perfil mais firme, ou autoritário como prefere a oposição. A postura radical do movimento estudantil não é novidade, mas a postura mais firme do governo pode gerar uma relação conturbada pela radicalização dos dois lados. Dos manifestantes eu não espero posso esperar muito, pois são jovens. Espero que o governo demonstre sabedoria para negociar e resolver.

O Alexandre Gracioso escreveu em seu blog: Se os alunos não se deixassem levar pelos ardores ideológicos dos professores jurássicos da FFLCH

Não é bem assim, Alexandre. Eu estudei Ciências Sociais na FFLCH, e o perfil médio dos professores não é o professor decadente, barbudo e militante de ultra esquerda. No departamento de Ciência Política, onde tive maior vivência, eu me surpreendi com a quantidade de professores simpáticos à social democracia, por exemplo. Mas a maioria esmagadora não declara apoio a nenhum partido; é o tipo de coisa que não vale a pena para um acadêmico.

O princípio de diminuir a autonomia acadêmica não é tão absurdo assim quanto a universidade faz parecer. Tanto alunos quanto professores protestam, e de certa forma eles têm razão: querem defender um benefício que é a autonomia. Todos os anos o Legislativo aprova um orçamento para o ensino superior no Estado de S. Paulo, e as universidades gastam esta verba como bem entendem, sem consultar e sem prestar contas a ninguém.

Em uma analogia grosseira seria como uma família, em que o pai dá dinheiro para o filho estudar e o filho nunca é cobrado sobre como está gastando o dinheiro. Pior: se o pai aborda o filho sobre como andam os estudos, este reaje de maneira exagerada, dizendo que o pai é controlador e tal.

A Universidade argumenta que somente a própria Universidade pode decidir os rumos da educação superior no Estado e por isso o Legislativo, que representa a vontade da maioria, não deve participar do orçamento interno das universidades. Ou seja, a universidade recebe o dinheiro do contribuinte, e se nega a prestar contas de como este dinheiro é gasto. Parece grosseiro, mas o meio acadêmico acha que deve ser assim mesmo. Aliás o meio acadêmico também acha que o mesmo contribuinte deveria contribuir mais com a Universidade.

A professora Elizabeth Balbachevsky tem uma teoria sobre Ciência e Tecnologia que eu acho interessante. Segundo Balbachevsky quando a universidade investe mais em ciência aplicada os setores produtivos são impulsionados e têm ganho de produção. Logo a produção de bens tende a aumentar. Por outro lado a ciência não aplicada não tem esse tipo de impacto direto na economia.

Se a direção do governo é aumentar a transparência nos gastos do ensino superior, isso por si só já é positivo. Por aí eu já discordo das manifestações que ocorrem hoje na usp.

Se posteriormente o governo, ou o legislativo, decidirem intervir na maneira de destinar dinheiro ao ensino superior, destinando mais verba para a ciência aplicada no Estado de S. Paulo, isso certamente vai aumentar a possibilidade de ganhos produtivos, melhor competitividade do nosso setor produtivo, maior produção, menor desemprego, certamente maior arrecadação.

Esse assunto diz respeito a Universidade, mas diz respeito ao Legislativo decidir os rumos do ensino superior em São Paulo. Afinal a conta é paga pelo contribuinte.

Popper e o ceticismo quanto à objetividade da ciência

“A ciência não se balisa sobre uma base sólida. A estrutura das teorias científicas parecem surgir de algo como um pântano. É como se ela fosse uma construção erigida sobre pilares. Esses pilares são fincados na lama do pântano e postos cada vez mais fundo, e quando paramos de fincá-los não é porque alcançamos solo firme. Nós simplesmente paramos porque acreditamos que a firmeza que as pilastras nos oferescem são adequadas à nossa estrutura.”

Tradução livre.