democracia

Marco Aurélio Garcia Defende Populismo

O conceito de populismo tem sido usado na América Latina para desqualificar experiências populares de grande valor. Marco Aurélio Garcia.

A declaração acima foi feita pelo assessor de Lula que se referia especialmente à Venezuela de Hugo Chávez. O populismo é uma prática política onde o povo é utilizado como massa de manobra para driblar a democracia.

Veja porque as práticas de Huga Chávez são populistas: Chávez utiliza o povo para aumentar seus poderes. Quando ele não consegue fazer uma reforma dentro das instituições democráticas, junto aos parlamentares venezuelanos, ele utiliza o contato direto com a massa para conseguir atingir seu objetivo. O melhor exemplo disso foi a reforma que permitiu que ele fosse reeleito para sempre.

Um dos indícios de populismo é o uso intenso de rádio e tv: Chávez tem programa de TV onde atende diretamente o povo. A ideia parece boa aos incautos, mas ela concentra o Estado na personalidade do líder nacional que passa a ofuscar outras lideranças políticas. No Brasil o político que mais se aproxima do perfil de populista é o ex-governador do Rio, Anthony Garotinho, que felizmente fracassou nas últimas eleições.

A declaração de Marco Aurélio Garcia é importante pois mostra que no governo federal existem muitas lideranças políticas que estão dispostas a abrir mão da democracia. Na verdade esses indivíduos distorcem o conceito de democracia. Para gente assim qualquer consulta popular é mais ‘democrática’ que as decisões de um Congresso Nacional livre, o que não é verdade. O presidente da república tem poderes para, por exemplo, tornar os jornais e revistas mais mansos e menos críticos oferecendo benefícios como propaganda paga com dinheiro público. Se juntarmos a isso a possibilidade de convocar plebiscitos populares o resultado pode ser uma ditadura. Nós já experimentamos dois períodos de ditadura no Brasil: o governo de Getúlio Vargas e o regime militar. Se depender de alguns petralhas o futuro nos reserva mais do mesmo.

O Fim da História

Francis Fukuyama
Francis Fukuyama durante simpósio em Paris, janeiro de 2009. Foto: Andrew Newton.

Na ilustrada deste domingo, dia 21, saiu uma matéria sobre o “fim da história” de Fukuyama. O “fim da história” é uma tese que fez muito barulho ao final da Guerra Fria. Ouvi muitos comentários sobre o “fim da história, a maioria deles ridicularizando o autor. Na verdade poucos entenderam o que Fukuyama quis dizer ao usar a expressão “fim da história”.

O que Fukuyama entende como história? Para ele a história é a evolução da ideologia humana. Essa evolução ocorreria sempre que duas ideologias disputam espaço. O fim da Guerra Fria representou a vitória da ideologia liberal democrata. A liberal democracia saíu vitoriosa da Guerra Fria. Se não surgir outra ideologia que dispute espaço com a liberal democracia, então não existirá evolução ideológica. Logo, Fukuyama concluiu que a história chegou ao seu fim.

Existem ao menos duas teses opostas à tese do fim da história. Uma delas é marxista. Do ponto de vista marxista-socialista haverá uma revolução proletária que dominará o capital. Os adeptos a este ideia sempre encaram as crises sistêmicas do liberalismo econômico como um sintoma de sucumbência do capitalismo. Foi assim na quebra da bolsa de NY em 1929, foi assim no fim do lastro ouro na era Nixon. A atual crise financeira também é recebida como prenúncio do fim do capitalismo pelos socialistas marxistas.

Eu truco: Marx esperava que a revolução surgisse em sociedades com duas características marcantes: (1) mais de 90% dos trabalhadores empregados pela indústria e (2) grande acumulação de capital, ou seja, uma sociedade rica. As sociedades talvez estejam cada vez mais ricas, mas a proporção de trabalhadores na indústria não tem crescido. Esse fato é tão negativo para a previsão marxista que recentemente o Partido Comunista Chinês tem dado claros sinais de ampliar a base de militantes que até a poucos anos atrás era formalmente limitado a proletários, que a princípio são os trabalhadores assalariados da indústria (essa mudança de postura está expressa no princípio do “Three Represents” da Constituição do Partido Comunista Chinês). A própria história desmente a previsão marxista.

Outra tese que se opõe a Fukuyama é a tese do choque de civilizações, de Samuel Huntington. Segundo Hungtington o fim da Guerra Fria permitiu que peculiaridades entre grandes civilizações se tornassem importantes. Durante a Guerra Fria as peculiaridade continuavam existindo, mas a disputa entre os dois pólos diminuíam a importância das questões regionais. Por exemplo: a disputa entre israelenses e árabes não eram vistos como um choque de civilizaçõe. Ao invés disso a Guerra Fria reduzia tudo a aliados dos EUA e aliados da União Soviética, criando uma perigosa bruma sobre as características regionais. Hoje a maior evidência desse choque de civiliações talvez seja a crescente hostilidade do mundo ocidental com os países muçulmanos.

Entre as três teorias eu fico com o Choque de Civilizações.

Algumas Coisas Sobre a China

A escrita tradicional (中國) e simplificada (中国) da palavra "China"Hoje foi o último dia dos Jogos Olímpicos e por isso resolvi falar de algumas coisas que acho interessante sobre a China.

De cada cinco pessoas no mundo, uma delas é chinesa. Apesar dessa proporção ser grande eu pouco ouço falar sobre o modo de vida de lá. Não é curioso?

Aparentemente existe uma valorização da educação formal muito maior naquele país do que no Brasil. Eu ainda não tive contato suficiente com literatura, filmes e seriados chineses para confirmar isso, mas aparentemente é o caso. Uma vez eu li algo a respeito em um livro de Paul Kennedy: Ascenção e Queda das Grandes Potências. Kennedy argumentava que nos EUA não se valoriza muito o preparo técnico formal, e que isso prejudica a economia de um país ao longo prazo. Qual será o peso que a valorização do ensino tem na atual prosperidade chinesa?

Em relação ao nome, os chineses chamam o seu Estado, a sua nação, de “Estado Central”, cuja pronúncia em mandarim é Zhōngguó (中国). O nome “China” que nós ocidentais damos para o “Estado Central” é um nome que os estrangeiros criaram se baseando no nome da dinastia Qin. Da mesma forma, não existe uma língua chamada chinês. A língua oficial na China é o mandarim de Pequim, e existem diversas outras línguas e dialetos falados dentro da China. Somente do mandarim existem oito dialetos…

Existem duas Chinas… Com o fim da II Guerra Mundial duas grandes frentes disputaram o poder interno. A frente de direita era liderada por um oficial do exército chinês que segundo a história tinha interesses de fundar uma nova dinastia. A frente de esquerda era mais voltada às ideologias de Confúcio onde o interesse coletivo deve prevalecer sobre o interesse individual. Em um mundo polarizado entre EUA e URSS a frente de esquerda se identificou com o comunismo da URSS e a frente de direita se identificou com o liberalismo econômico dos EUA. Na China continental a esquerda ganhou o controle de todo o continente (República Popular da China), e o grupo de direita ficou com a China que conhecemos hoje como Taiwan (República da China). Mas até hoje ambos Estados reclamam ser o verdadeiro governo central…

obs: quando a China se fechou para o mundo, logo após a revolução cultural, eu acho que estava patente que a China não era nem alinhada à União Soviética ou aos Estados Unidos. Ainda hoje as pessoas olham para aquela direção e acham que eles são comparáveis aos russos, o que é um grande engano.

Na China não se usa o alfabeto romano. O mandarim é escrito usando um alfabeto muito antigo chamado kanji. No Brasil nós chamamos este alfabeto de ideograma, pois cada letra costuma representar uma idéia. O kanji também é muito usado no Japão e nas Coréias, mas nestes dois países existem alfabetos auxiliares que são mais fáceis de se usar. O kanji tem milhares de letras. Para ser considerado alfabetizado um chinês deve conhecer mais de dois mil ideogramas!

Em mandarim existem cinco entonações diferentes para cada vogal que conhecemos. Assim uma simples sílaba pode ser pronunciada de cinco maneiras diferentes! A palavra “ma” pode significar mãe, xingar, cavalo, maconha ou uma preposição de pergunta, dependendo da entonação. Então a frase “mamãe xingou o cavalo?” pode ser facilmente confundido com “o cavalo xingou a mamãe?” por alguém que não tenha o ouvido treinado 🙂

A China é uma enorme república onde existe praticamente um único partido: o Partido Comunista Chinês. Os chineses se orgulham de ter o partido com o maior número de militantes no mundo. Apesar de ser o partido hegemônico, duas coisas me chamam a atenção: (1) existe um sentido republicano mais forte no Partido Comunista Chinês do que na maioria dos partidos brasileiros. Em outras palavras o partido não se mistura com o governo em termos de estrutura ou de orçamento; (2) existem outros partidos menores na China em plena liberdade de funcionamento, apesar das notícias da imprensa ocidental. O chinês médio costuma entender que a sua nação é a maior democracia no mundo. Essa informação deve surpreender a qualquer ocidental que tem sua visão de mundo feita por notícias distribuídas pela Reuters, American Press ou France Press (a grande maioria das notícias que lemos no Brasil vem de uma dessas fontes, seja qual for o jornal ou revista). O ponto de vista oposto é o da agência chinesa Xinhua. Não sei se é idôneo, mas é muito útil para comparar com o que costumamos ler.

Mas isso é muito bom para demonstrar que o sentido de democracia é muito vago. Muitos consideram os EUA muito democráticos, mesmo que o seu processo político se baseie em dois partidos (limitação de escolha) e que a eleição se baseie fortemente em financiamento de grandes corporações (predominância do capital sobre o indivíduo). Os brasileiros também se acham muito mais democráticos que a China. Eu questiono isso. Veja só: até hoje eu não dei uma palavra sequer sobre as eleições municipais de São Paulo, pois tenho medo de ser penalizado com uma multa pelo Estado brasileiro. Hoje declarar apoio no meu blog pode me gerar uma multa de até R$ 24.000,00 para mim e mais outros R$ 24.000,00 para o candidato, além de poder haver cancelamento da elegibilidade do candidato. Parece que estou exagerando? Pois eu e mais um jovem do PSDB abrimos um blog para divulgar notícias do candidato do nosso partido e poucos dias depois um assessor do candidato nos convidou para uma reunião e expôs o problema pedindo que retirássemos a página do ar. Então eu acho muito hipócrita dizer que a China não é do bem por que tem um determinado número de partidos no poder… As críticas à política chinesa que fazem sentido se restringem a violação de direitos humanos, mas o assunto não é tratado com respeito pela mídia ocidental.

Crianças com a Bandeira Chinesa

A China possui muitas etnias, e nos jogos olímpicos fez questão de valorizar todas estas etnias. Na abertura dos jogos foi possível ver 56 crianças vestidas com roupas típicas, representando cada uma destas etnias. É um sinal positivo. Muitos países valorizam suas minorias étnicas, como a Suíça. Outros estados, como os EUA, têm medo das minorias. Recentemente o governo Bush tornou ainda mais difícil a entrada de imigrantes latinos, e até de turistas, atendendo a um clamor eleitoral de extrema direita de manter a maioria branca. Os jornais ocidentais criticaram o fato das crianças serem todas da etnia da maioria, a etnia Han. É uma representação. Sem comentários.

Funcionalismo Público

Eu ainda não sei bem mas me parece – até onde eu posso deslumbrar – que o funcionalismo público teve muitos dos seus princípios vindos da China. Confúcio e Zhuge Liang são dois nomes de referência sobre o assunto, pois ambos deixaram um forte legado moral e ético sobre o serviço público. Notei isso assistindo a uma novela coreana de 2004 cujo título é 낭랑18(Sweet 18). Nela o protagonista é um funcionário público sul coreano: um promotor público que luta no combate à corrupção. Por diversas vezes é citado Zhuge Liang, um herói chinês. Sua atuação remete ao período dos Três Reinos que antecederam a China unificada. Busquei três citações nos dois primeiros capítulos da série:

"Inacabada obra a restauração de Han, o último rei falecera. Nosso castelo agora está revestido com a mais terrível condição."

 

Segundo o seriado a citação faz parte do livro “Petição para Confronto em Batalha”, mas eu não encontrei nenhuma citação a este livro na internet. Provavelmente é do livro Chū Shī Biǎo (出師表) que Zhuge Liang escreveu antes da batalha do norte, e contém várias recomendações sobre a guerra além de princípios morais que deveriam guiar o governo do imperador Liu Shan.

 

Nessa cena o avô do chama a atenção do neto com uma citação de Confúcio. A fala do Avô:

“Confúcio disse que as pessoas escolhem suas palavras cuidadosamente porque elas têm medo de sustentar suas próprias palavras. Como você pode falar dessa maneira quando você é um funcionário público?”

O avô do promotor Kwon cita outro provérbio tradicional à mãe da noiva, quando toma conhecimento de que o promotor cancelou o casamento:

“Não é apropriado para um cavalheiro voltar atrás com sua palavra”

Alguns valores modernos do funcionalismo público ocidental teriam sido trazidos, em parte, pelos ingleses quando estes chegaram à China no auge do império britânico. Como a Inglaterra tinha um domínio de fato sobre o Reino Português, parte desses valores teriam sido assimilados por aqui também. Quem dera a contribuição moral de Confúcio e Zughe Liang fossem maiores no Brasil: certamente teríamos serviços públicos de melhor qualidade.

Quer saber mais? CHINAKNOWLEDGE – a universal guide for China studies

Konrad-Adenauer e Cursos de Política

Hoje estive em uma reunião no Instituto do Legislativo Paulista (ILP) com o presidente do ILP e a equipe da Fundação Konrad-Adenauer Stiftung para tratar de uma possível parceria em cursos sobre ciência política.

O presidente do ILP, Eduardo Lamari, vêm trabalhando para pôr em prática um Curso de Iniciação Política. O conteúdo do curso foi cedido pela Fundação Mario Covas e a Assembleia Legislativa já imprimiu várias cópias da apostila deste curso. Infelizmente encontramos limites financeiros para colocar este projeto em ação: a Assembleia conta com um orçamento bastante limitado este ano, o que impede a contratação de professores para este curso. A parceria com a Fundação alemã viria resolver esta questão, além de trazer cursos mais específicos sobre a democracia.

A Konrad-Adenauer é uma fundação alemã que produz estudos de excelente qualidade sobre democracia. Foi uma das principais referências nos estudos de Sistema Partidário que tive com a Prof. Maria D’Alva Kinzo, na USP. Essa parceria que deve se concretizar nos próximos meses deve resultar em Cursos de Iniciação Políticas aos cidadãos do nosso Estado, especialmente aos jovens, além de cursos sobre partidos políticos e democracia destinado a um público mais engajado tanto na política quanto nas faculdades.

Candidatura Tucana

Tucano com o bico abertoNa última segunda estive na oficialização da candidatura de Geraldo Alckmin no diretório municipal do PSDB. A partir de agora Geraldo Alckmin é pré-candidato do PSDB para a prefeitura. Por enquanto a campanha não é permitida, por isso no atual momento Alckmin é pré-candidato, e não candidato. Os partidos políticos só devem homologar seus candidatos em junho, obedecendo ao calendário eleitoral.

A reunião foi noticiada por diversos jornais que aguardavam ansiosos esta definição do PSDB desde o fim do ano passado. A difícil questão da aliança com os democratas foi o principal fator para que a decisão não fosse tomada antes. Até o blog da juventude tucana, que até então vinha ignorando as manifestações favoráveis a candidatura própria dentro PSDB noticiou a reunião desta segunda-feira. A militância do partido têm realizado diversas manifestações na cidade nos últimos meses pedindo que o PSDB lance um candidato próprio para prefeito, e estas manifestações tem tido a presença de muita gente.

Como pode ser lido nas matérias que saíram na mídia aqui e ali, o deputado federal Walter Feldman e quase todos os vereadores da capital estiveram presentes na reunião de segunda-feira defendendo a aliança com os democratas. A defesa da aliança por parte de Feldman e os vereadores da capital não foi bem aceita pela grande maioria da militância, e alguns militantes mais beligerantes utilizaram de gritaria e termos impróprios para atacar os parlamentares. Isso é fato, mas foi a manifestação de uma minoria mais barulhenta. Mas Lobo admoestou a estes militantes com muita propriedade e energia e o deputado José Aníbal fez uma participação pela união do partido muito sensata. Ah, o anúncio de Lobo se balizou em preceitos partidários e na vontade da expressa manifestação da maioria da militância. Não vejo nenhuma falha democrática como apontaram alguns companheiros.

Eu não gostei do tom violento que a reunião tomou em certos momentos, mas acredito que se o partido tivesse se aberto a uma definição clara a alguns meses atrás estas discussões teriam sido mais brandas. Cabe aos militantes do partido pensar em um modelo de discussões de idéias mais moderno dentro do PSDB. Com isso estaremos fortalecendo o exercício da social democracia e a união interna do partido.

Aposentadoria do Fidel Castro

Fidel Castro charutando

O Fidel Castro pediu aposentadoria esta semana, gerando uma reação pelos jornais em geral. Apesar do Fidel demonstrar uma enorme preocupação com a igualdade dos indivíduos, ele é um dos maiores ícones do autoritarismo na América Latina. Como um bom democrata, resolvi fazer uma comemoração à liberdade levando um charuto cubano para o ILP que fumei com o Lamari e a Mayra. E escolhi compartilhar o charuto com os dois pois o Lamari é o meu colega que mais preza a liberdade, e a Mayra é aquela que certamente mais preza a igualdade 🙂

Lamari com charuto e Lia BaraúnaMayra com o charuto cubano
Lamari e Mayra charutando por Cuba: o charuto é o mesmo mas os motivos são diferentes

No livro Da Democracia na América, Alexis de Tocqueville descreve maravilhado um sistema político onde os valores de igualdade e liberdade são fortemente enfatizados. É difícil concordar com Tocqueville hoje dia, quando o sistema norte-americano encontra tantos problemas de representação de minorias, como os negros, e forte influência do capital de grandes empresas, como a Enron. A democracia deveria servir ao bem estar dos indivíduos, e não às corporações que financiam as eleições.

Mas existe uma consideração interessante neste livro sobre liberdade e igualdade. Tocqueville considera ambos valores igualmente importantes, mas teóricamente a igualdade lhe parece mais importante em um primeiro momento, pois segundo Tocqueville, em uma sociedade onde exista liberdade absoluta e nenhum dispositivo para tornar os homens iguais, os mais fortes irão excercer algum tipo de dominação sobre os mais fracos (ou pobres). Já em uma sociedade onde exista igualdade total, a tendência é que exista uma liberdade total, pois não havendo diferença entre os homens não existe dominação, nem a privação da liberdade do mais forte para com o mais fraco… Resumindo: muita liberdade gera desigualdade. Muita igualdade gera liberdade.

Nesse sentido o Fidel é justificado: suprimir toda a liberdade do indivíduo em nome de uma pretensa igualdade total vale a pena pois no limite isso liberta o homem. São considerações teóricas, pois em geral se limitam ao aspecto econômico da vida em sociedade, e considera limites teóricos para lá de questionáveis, afinal o que raios é liberdade total, ainda que nos limitemos ao aspecto econômico dessa consideração?

Felipe Gomes charutandoTeorias a parte, eu torço por sistemas políticos abertos à participação de algum tipo de oposição real, onde aqueles que discordem da ordem política possam lutar como Lula, dentro do próprio sistema eleitoral, e não como Fidel e Guevara, pela luta armada. Isso gera situações dramáticas como guerras e tortura. Não posso concordar. É por isso que comemorei essa pequena perspectiva de liberdade política, que desejamos ver com o afastamento de Fidel do poder.

Por fim, ficou aquele gosto estranho de charuto na boca: não tenho nenhum costume de fumar, mas valeu pela firula. Da próxima vez espero poder servir um Cuba Libre.

Parlamentarismo no Brasil

Certa vez o cientista político Leonel Itaussú citou El Gatopardo: “é importante mudar tudo para manter tudo como está“. E citou ao se referir às mudanças institucionais ocorridas no Brasil. No Brasil as mudanças institucionais sempre foram feitas pelas elites. Foi assim com a proclamação da independência, a abolição da escravatura, a promulgação da república e tantos outors golpes e mudanças.

Minha opinião pessoal: bom.

A formação esquerdista cultiva imagens da massa se movendo gloriosamente na promoção de valores nobres, e fundando uma ordem social e econômica melhor e mais digna. Eu não consigo deixar de ver a violência rolando solta, de maneira abrupta e espalhando medo. Um medo que só se compara a magnitude dos valores gloriosos. Foi assim na importante Revolução Francesa e também foi assim nas tentativas de golpe e contra golpes ocorridos na Venezuela.

Não estou criticando os valores daqui ou dali. Estou criticando a forma violenta de promove-los.

Ontem foi formada no Senado uma frente em defesa do parlamentarismo composta por 75 parlamentares e que é coordenada pelo senador Fernando Collor (leia a notícia no jornal do senado). O sistema parlamentarista funcionou durante alguns meses no Brasil durante o curto governo de João Goulard. Segundo Fernando Limongi a instituição do parlamentarismo foi tão mau feito que algumas atribuições de Estado poderiam ser desempanhadas tanto pelo presidente quanto pelo primeiro ministro.

Mas era outra época. O parlamentarismo foi instaurado por radicais que não aceitavam o governo de João Goulard. Hoje a frente em desesa do parlamentarismo opera em clima de estabilidade institucional, e eu espero que consiga fortalecer o parlamentarismo como algo bom para o país. Curioso mesmo é a coordenação estar a cargo de Fernando Collor. Para muita gente isso é sinal de que no Brasil, nada muda. Ou melhor, muda para não mudar nada.

Minha opinião pessoal? As mudanças institucionais graduais são melhores pois causam menos traumas e permitem correções antes que catastrofes ocorram. E acho que o parlamentarismo seria um ótimo avanço institucional. Com o parlamentarismo a nossa democracia seria mais ágil.

Ainda Sobre a Ocupação da Reitoria da USP

A reitoria da USP continua ocupada por alunos da universidade. Se compararmos com outros governo, o governo de José Serra tem um perfil mais firme, ou autoritário como prefere a oposição. A postura radical do movimento estudantil não é novidade, mas a postura mais firme do governo pode gerar uma relação conturbada pela radicalização dos dois lados. Dos manifestantes eu não espero posso esperar muito, pois são jovens. Espero que o governo demonstre sabedoria para negociar e resolver.

O Alexandre Gracioso escreveu em seu blog: Se os alunos não se deixassem levar pelos ardores ideológicos dos professores jurássicos da FFLCH

Não é bem assim, Alexandre. Eu estudei Ciências Sociais na FFLCH, e o perfil médio dos professores não é o professor decadente, barbudo e militante de ultra esquerda. No departamento de Ciência Política, onde tive maior vivência, eu me surpreendi com a quantidade de professores simpáticos à social democracia, por exemplo. Mas a maioria esmagadora não declara apoio a nenhum partido; é o tipo de coisa que não vale a pena para um acadêmico.

O princípio de diminuir a autonomia acadêmica não é tão absurdo assim quanto a universidade faz parecer. Tanto alunos quanto professores protestam, e de certa forma eles têm razão: querem defender um benefício que é a autonomia. Todos os anos o Legislativo aprova um orçamento para o ensino superior no Estado de S. Paulo, e as universidades gastam esta verba como bem entendem, sem consultar e sem prestar contas a ninguém.

Em uma analogia grosseira seria como uma família, em que o pai dá dinheiro para o filho estudar e o filho nunca é cobrado sobre como está gastando o dinheiro. Pior: se o pai aborda o filho sobre como andam os estudos, este reaje de maneira exagerada, dizendo que o pai é controlador e tal.

A Universidade argumenta que somente a própria Universidade pode decidir os rumos da educação superior no Estado e por isso o Legislativo, que representa a vontade da maioria, não deve participar do orçamento interno das universidades. Ou seja, a universidade recebe o dinheiro do contribuinte, e se nega a prestar contas de como este dinheiro é gasto. Parece grosseiro, mas o meio acadêmico acha que deve ser assim mesmo. Aliás o meio acadêmico também acha que o mesmo contribuinte deveria contribuir mais com a Universidade.

A professora Elizabeth Balbachevsky tem uma teoria sobre Ciência e Tecnologia que eu acho interessante. Segundo Balbachevsky quando a universidade investe mais em ciência aplicada os setores produtivos são impulsionados e têm ganho de produção. Logo a produção de bens tende a aumentar. Por outro lado a ciência não aplicada não tem esse tipo de impacto direto na economia.

Se a direção do governo é aumentar a transparência nos gastos do ensino superior, isso por si só já é positivo. Por aí eu já discordo das manifestações que ocorrem hoje na usp.

Se posteriormente o governo, ou o legislativo, decidirem intervir na maneira de destinar dinheiro ao ensino superior, destinando mais verba para a ciência aplicada no Estado de S. Paulo, isso certamente vai aumentar a possibilidade de ganhos produtivos, melhor competitividade do nosso setor produtivo, maior produção, menor desemprego, certamente maior arrecadação.

Esse assunto diz respeito a Universidade, mas diz respeito ao Legislativo decidir os rumos do ensino superior em São Paulo. Afinal a conta é paga pelo contribuinte.