Proteções e travas na TV digital brasileira

Primeiro o ministro das comunicações, Hélio Costa, argumentou contra a proteção contra gravações no sinal aberto de tv digital acusando-o de inconstitucional. Hoje o mesmo ministro mudou de discurso após um almoço.

Inconstitucionalidade é uma questão muito séria. Agora o ministro se encontra em uma posição que eu desconfio muito. Ou ele foi incompetente e errou quando disse que o bloqueio era inconstitucional, ou existe alguma motivação econômica para a mudança de opinião repentina.

Se o governo planeja regulamentar uma TV digital cujo sinal aberto possui bloqueio de gravação e este bloqueio é inconstitucional, o único argumento que poderia ser utilizado é a colisão com outra regra constitucional, o que aliás não foi o caso. Pelo que entendi na matéria da Folha de S. Paulo, o argumento do ministro é de que os negócios da indústria de entretenimento poderiam ser prejudicados.

Resumindo: o ministro aceita ferir os direitos constitucionais da maioria em função da minoria. Isso não é governo do povo.

Leia mais na Folha de S. Paulo.

Exército brasileiro, Haiti e favelas cariocas

Não sabia que o Bráz de Araújo tinha falecido. Fiz duas matérias com ele sobre política internacional na fflch. Fiquei sabendo hoje no site do departamento de ciências políticas e no blog Tucanusp.

A propósito, o Alexandre Dias levantou um intrigante possibilidade em um post: de que o exército brasileiro utilizou a ocupação no Haiti para aprender técnicas de ocupação de favelas.

Acho improvável que a motivação do governo em ocupar o Haiti tenha sido a de treinar para ocupações no Rio de Janeiro, mas algum técnico do exército pode ter, sim, deslumbrado essa possibilidade: a de adquirir conhecimento para aplicar nas favelas cariocas.

Parlamentarismo no Brasil

Certa vez o cientista político Leonel Itaussú citou El Gatopardo: “é importante mudar tudo para manter tudo como está“. E citou ao se referir às mudanças institucionais ocorridas no Brasil. No Brasil as mudanças institucionais sempre foram feitas pelas elites. Foi assim com a proclamação da independência, a abolição da escravatura, a promulgação da república e tantos outors golpes e mudanças.

Minha opinião pessoal: bom.

A formação esquerdista cultiva imagens da massa se movendo gloriosamente na promoção de valores nobres, e fundando uma ordem social e econômica melhor e mais digna. Eu não consigo deixar de ver a violência rolando solta, de maneira abrupta e espalhando medo. Um medo que só se compara a magnitude dos valores gloriosos. Foi assim na importante Revolução Francesa e também foi assim nas tentativas de golpe e contra golpes ocorridos na Venezuela.

Não estou criticando os valores daqui ou dali. Estou criticando a forma violenta de promove-los.

Ontem foi formada no Senado uma frente em defesa do parlamentarismo composta por 75 parlamentares e que é coordenada pelo senador Fernando Collor (leia a notícia no jornal do senado). O sistema parlamentarista funcionou durante alguns meses no Brasil durante o curto governo de João Goulard. Segundo Fernando Limongi a instituição do parlamentarismo foi tão mau feito que algumas atribuições de Estado poderiam ser desempanhadas tanto pelo presidente quanto pelo primeiro ministro.

Mas era outra época. O parlamentarismo foi instaurado por radicais que não aceitavam o governo de João Goulard. Hoje a frente em desesa do parlamentarismo opera em clima de estabilidade institucional, e eu espero que consiga fortalecer o parlamentarismo como algo bom para o país. Curioso mesmo é a coordenação estar a cargo de Fernando Collor. Para muita gente isso é sinal de que no Brasil, nada muda. Ou melhor, muda para não mudar nada.

Minha opinião pessoal? As mudanças institucionais graduais são melhores pois causam menos traumas e permitem correções antes que catastrofes ocorram. E acho que o parlamentarismo seria um ótimo avanço institucional. Com o parlamentarismo a nossa democracia seria mais ágil.

Proibição de Venda Casada

No último dia 15 a Info noticiou proposta da deputada federal Raquel Teixeira de proibir a venda casada de hardware com software, seja ele sistema operacional ou aplicativo.

A proposta é interessante pois tem a intenção de combater o monopólio da Microsoft, mas prejudica o consumidor. O consumidor precisa de um hardware com software pré-instalado, que ele ligue e já possa usar. Além disso existem os computadores de grande porte que podem não ter opção de sistema operacional, e a proposta simplesmente perde o sentido neste caso em que só seria gerado maiores problemas para consumidores e vendedores.

A proposta em questão poderia ser melhorada no sentido de dar incentivos fiscais aos fabricantes que dão opção de venda de seus hardwares com programas livres. De certa forma é o que acontece com o programa de financiamento do governo federal, mas ele poderia ser aprimorado. O programa do governo federal só beneficia computadores pessoais de baixo custo. A insenção fiscal a computadores com opção de venda sistema operacional livre poderia ser levada a todos os computadores, independente de valor e aprovação pelo programa do governo.

Estou encaminhando este comentário para a deputada Raquel Teixeira e para o deputado federal Walter Feldman aqui de São Paulo, recomendando o apoio a esta proposta porém com alterações.

Ainda Sobre a Ocupação da Reitoria da USP

A reitoria da USP continua ocupada por alunos da universidade. Se compararmos com outros governo, o governo de José Serra tem um perfil mais firme, ou autoritário como prefere a oposição. A postura radical do movimento estudantil não é novidade, mas a postura mais firme do governo pode gerar uma relação conturbada pela radicalização dos dois lados. Dos manifestantes eu não espero posso esperar muito, pois são jovens. Espero que o governo demonstre sabedoria para negociar e resolver.

O Alexandre Gracioso escreveu em seu blog: Se os alunos não se deixassem levar pelos ardores ideológicos dos professores jurássicos da FFLCH

Não é bem assim, Alexandre. Eu estudei Ciências Sociais na FFLCH, e o perfil médio dos professores não é o professor decadente, barbudo e militante de ultra esquerda. No departamento de Ciência Política, onde tive maior vivência, eu me surpreendi com a quantidade de professores simpáticos à social democracia, por exemplo. Mas a maioria esmagadora não declara apoio a nenhum partido; é o tipo de coisa que não vale a pena para um acadêmico.

O princípio de diminuir a autonomia acadêmica não é tão absurdo assim quanto a universidade faz parecer. Tanto alunos quanto professores protestam, e de certa forma eles têm razão: querem defender um benefício que é a autonomia. Todos os anos o Legislativo aprova um orçamento para o ensino superior no Estado de S. Paulo, e as universidades gastam esta verba como bem entendem, sem consultar e sem prestar contas a ninguém.

Em uma analogia grosseira seria como uma família, em que o pai dá dinheiro para o filho estudar e o filho nunca é cobrado sobre como está gastando o dinheiro. Pior: se o pai aborda o filho sobre como andam os estudos, este reaje de maneira exagerada, dizendo que o pai é controlador e tal.

A Universidade argumenta que somente a própria Universidade pode decidir os rumos da educação superior no Estado e por isso o Legislativo, que representa a vontade da maioria, não deve participar do orçamento interno das universidades. Ou seja, a universidade recebe o dinheiro do contribuinte, e se nega a prestar contas de como este dinheiro é gasto. Parece grosseiro, mas o meio acadêmico acha que deve ser assim mesmo. Aliás o meio acadêmico também acha que o mesmo contribuinte deveria contribuir mais com a Universidade.

A professora Elizabeth Balbachevsky tem uma teoria sobre Ciência e Tecnologia que eu acho interessante. Segundo Balbachevsky quando a universidade investe mais em ciência aplicada os setores produtivos são impulsionados e têm ganho de produção. Logo a produção de bens tende a aumentar. Por outro lado a ciência não aplicada não tem esse tipo de impacto direto na economia.

Se a direção do governo é aumentar a transparência nos gastos do ensino superior, isso por si só já é positivo. Por aí eu já discordo das manifestações que ocorrem hoje na usp.

Se posteriormente o governo, ou o legislativo, decidirem intervir na maneira de destinar dinheiro ao ensino superior, destinando mais verba para a ciência aplicada no Estado de S. Paulo, isso certamente vai aumentar a possibilidade de ganhos produtivos, melhor competitividade do nosso setor produtivo, maior produção, menor desemprego, certamente maior arrecadação.

Esse assunto diz respeito a Universidade, mas diz respeito ao Legislativo decidir os rumos do ensino superior em São Paulo. Afinal a conta é paga pelo contribuinte.

Informações de Vencimento do Chinchilla

Hoje eu resolvi falar um pouco sobre como é trabalhar na Folha de Pagamento da Assembleia Legislativa. Eu trabalho neste setor a alguns anos, e também tive a boa oportunidade de contribuir por alguns meses em um projeto de informática também na Assembleia. Boa parte do trabalho no setor se encaixa perfeitamente naquele tipo de trabalho que você conhece como sendo burocrático, ou seja, moroso. Fora a reestruturação administrativa do deputado Tripoli, do 1996, a influência da fora no modo de trabalhar é praticamente nula, e é comum eu encontrar formas de se trabalhar definidas a duas décadas, portanto antes da resolução da época do Tripoli.

Ainda assim a quantidade de funcionários que desempenham os serviçoes de Folha de Pagamento têm caído monotonamente ao longo dos anos, sinal de que mesmo quando não existe uma gerência formal nos processos mais gerais, os ganhos de produtividade acabam sendo adotados pelos funcionários nas suas tarefas diárias. Foi assim quando o substituíram a máquina de escrever pelo editor de textos, assim como quando substituíram a máquina de calcular pela planílha eletrônica.

Esta foto exemplifica uma quantidade média de trabalho de nomeações de funcionários novos. Com as fichas antigas um funcionário da folha gastaria um dia de trabalho anotando a caneta as publicações de nomeações em fichas A3 e depois emitindo um relatório chamado Informações de Vencimento (IV) que está bravamente em produção a pouco mais de quinze anos desde que foi desenvolvido em DBase pelo meu colega Carlos Giusti. Hoje este mesmo trabalho gera um volume menor de papel, e em bem menos tempo graças ao Sistema de Folha de Pagamento do Projeto Chinchilla.

Por outro lado estou enviando outra foto com uma cadeira repleta de serviços do mesmo gênero, todos enviados à Folha de Pagamento em um único dia:

Detalhe: pessoas dependem do bom andamento desse serviço todo para que no dia de pagamento o ordenado seja depositado fielmente pelo empregador. Dá para notar a força tremenda necessária para dar vazão a este trabalho, já que as pessoas dependem disso para receber o ordenado em conta corrente. O mais surpreendente é que em essência todo o fluxo de trabalho dentro da Folha de Pagamento da Assembleia é basicamente o mesmo exceto alterações formais de junções ou divisões de salas decorrentes da já citada resolução da gestão Tripoli.

Os relatórios, que faz vinte anos eram emitidos em quatro vias carbonadas e datilografadas, foram transformadas em relatório impresso por DBase faz quinze anos, e desde então vinha sendo impresso em impressoras matriciais. Como houve evasão de força de trabalho nos últimos anos, o ganho dos relatórios de Informações de Vencimento do chinchilla basicamente compensaram a evasão de funcionários.

Em outras palavras, o governo não pode despedir para fazer o downsizing, mas ao deixar de contratar novos funcionários, de uma maneira alternativa o downsizing é realizado. Pena que de uma maneira pouco programada.

Sobre Direitos e Obrigações

Segundo Miguel Reale, todo direito implica em obrigação. Pelo menos é isso o que se espera em um modelo jurídico razoável. No direito brasileiro, por exemplo, essa não é uma exigência segundo a qual uma lei deve atender para vir a ser aprovada. É tragicamente comum tomarmos ciência de leis que jamais são levadas a sério, ou por não serem minimamente razoável ou porque esta lei que foi tão cuidadosa em estabelecer um direito, simplesmente calou-se em apontar o responsável em prover aquele direito. Ou seja, muitas leis apontam quem pode almoçar, mas não diz quem vai pagar a conta, ou quando diz, diz que é o Estado quem paga a conta, mas esquece de apontar o ente estatal ou de apontar adequadamente o orçamento para isso.

Funciona mais ou menos assim: o parlamentar constata um fato, por exemplo, que “nem todo brasileiro possui casa própria”, e faz um juízo de valor, “que todo cidadão brasileiro deve possuir casa própria”. Posto dessa forma, sem apontar quem vai pagar a casa de cada brasileiro, parece ridículo a aprovação de tal norma, mas ela foi aprovada, e como emenda à Constituição Federal! Mas como nenhum ente estatal é responsabilizado de maneira sumária, o Estado continua agindo como sempre agiu, com seus programas habitacionais limitados, em sua maioria federais ou estaduais, sem que a novidade jurídica lhe acrescentasse nada de novo. Na verdade é como se a nova lei nunca tivesse existido!

É mais ou menos como se um pai tivesse R$ 100,00 e prometesse dar a cada uma de suas três filhas um vestido de R$ 50,00 a cada uma que passasse de ano no colégio. Ou uma delas reprova ou o pai não terá dotação orçamentária, e não há juízo de valor de faça R$ 100,00 comprar três vestidos de R$ 50,00, por mais que isso seja justo.

É por isso que eu defendo um modelo jurídico mais rigoroso, onde as leis que dão direito só são aprovadas mediante demonstração estrita de viabilidade orçamentária, pois a lei não depende só de um bom senso justiça, mas de viabilidade econômica.

São leis como estas que causa os maiores transtornos sociais. Esse tipo de formulação jurídica gera situações de desgaste desnecessárias entre o Estado e a sociedade organizada. Quando cidadãos se organizam para ir ao poder público reivindicar que seja cumprida uma lei que eles consideram justa e este poder público responde que não pode cumprir esta lei, o cidadão não entende, se sente roubado, e com uma boa dose de razão. Se a lei é justa, por que não posso me beneficiar dela? E uma coisa é certa, só entende a resposta quem é governo, ou quem sabe pensar como governo. Uma boa prova disso é o PT, que só passou a entender disso depois de ocupar o Palácio da Alvorada.

Uma outra implicação de leis que instituem direitos sem instituir a obrigação correlata é o enfraquecimento do regime democrático, na medida em que suscita a impressão de que o sistema não funciona segundo o senso de justiça. O mesmo cidadão que teve seu direito negado por, digamos, inviabilidade técnica, se sente roubado ao saber que outros direitos menos ‘justos’ são exercidos correntemente, provavelmente porque são dotados de viabilidade técnica necessária. Ou seja, quando um parlamentar diz que todos têm direito a habitação ou a uma renda mínima, ele não destina verba, mas quando diz que todo gabinete de deputado tem direito a x cargos de confiança, inclusive parte destes cargos a familiares próximos, a verba é destinada corretamente. Assim, o cumprimento de uma lei está muito mais ligado a sua dotação orçamentária do que de seu recurso financeiro, mesmo que um direito com jeito de nepotismo seja indiscutivelmente menos justo que renda mínima ou habitação para todos.

Felipe dos Santos Gomes em 17 mai. 05. Reprodução permitida desde que citada a fonte.